imThbPool“O desgosto e a mágoa surgem de uma perda, seja ela qual for. Qual é a nossa relação com a experiência da perda, que na verdade é apenas outra palavra para mudança? Temos aversão por ela? Temos apego ao que perdemos, fosse uma pessoa, ou uma situação das nossas vidas?

Fui primeiramente surpreendido pela diferença entre perda e mágoa quando reflectia sobre dois ensinamentos diferentes de textos budistas. Um é a história que revela o sentimento de perda sentido pelo próprio Buda. Na altura da morte dos seus principais discípulos, Sariputta e Moggallana, o Buda comentou que foi como se a luz do sol e da lua tivessem desaparecido do céu, de tal maneira importante tinha sido a contribuição dos dois para os ensinamentos. Isto é uma reflexão muito pungente sobre a magnitude da perda.

O segundo ensinamento é do Satipetthana Sutta, o discurso sobre as bases da atenção plena. Neste sutra, o Buda declara os frutos da prática: “Este é o caminho para a purificação dos seres, para triunfar do sofrimento e da lamentação, para o desaparecimento da dor e do pesar, para atingir o Nobre caminho, para a realização do Nirvana – nomeadamente, as quatro bases
da atenção plena.”

Portanto como poderia Buda ter sentido a perda dos seus discípulos próximos e ao mesmo tempo declarar que o despertar conduz ao triunfo sobre o sofrimento e ao desaparecimento da mágoa? Talvez seja a aceitação e a consciência do sentimento de perda que torna isto possível, e é a não aceitação que se repercute em mágoa. Seria interessante explorar não só a aceitação da própria perda, que é frequentemente um processo que se estende no tempo, mas também uma aceitação do sentimento da perda, que pode acontecer a qualquer momento. Quando investigamos a nossa relação com várias emoções a nossa prática abre-nos para outros níveis de compreensão. O que pode parecer impossível e até não natural, a um nível, pode tornar-se a norma noutro.

Ao mesmo tempo, devemos estar exactamente onde estamos, não numa pretensão idealizada de onde gostaríamos de estar. Muitos de nós provavelmente não ultrapassaram o apego e a aversão, o orgulho e o medo, a mágoa e o desgosto. A questão mantém-se, podemos estar com estes sentimentos de uma forma hábil? Podemos ser abertos e experienciá-los sem nos agarrarmos a eles? Trata-se de encontrar o equilíbrio entre ir trabalhando com essas emoções enquanto contínuo processo de aceitação e largar mão e explorar a possibilidade de cortar os nossos apegos num momento de compreensão clara.

Quando uma casa está a arder, o fogo é extinto pela água. Da mesma forma, a pessoa sábia e confiante extingue a mágoa logo que esta surja, tal como o vento a afastar uma bola de algodão.
A pessoa que procura a sua felicidade deve remover a auto-imposta flecha do pesar, do desejo e do desespero. A pessoa que removeu a flecha, que está livre do apego e do pesar, tendo obtido a paz interior, está quieta
. (Sutta Nipata)

de One Dharma, de Joseph Goldstein
Pintura: Jia Lu



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